Bruno D´Almeida - Um escritor comendo pelas bordas. Todo domingo uma nova crônica.

Aqui você lê textos literários e outros pensamentos imperfeitos. E-mail: brunofd@hotmail.com

7.6.09

Viagem da viagem de quase lua de mel

 http://static.blogo.it/viajandaun/varig.jpg


Olhando para o teto da cama, Daniel Limeira relembrou o momento em que encontrou uma pessoa do passado na rua. Foram cinco intermináveis segundos até o sinal abrir. E ele lembrou mais ainda, mais do que gostaria. Aquela mulher recebeu a maior declaração de amor que ele fora capaz de fazer. Mas é o seguinte: essa história não tem final feliz. Tem certeza de que precisa relembrar? Daniel mandou seu anjo-diabo da guarda calar a boca.

Primeira viagem dos noivos. Ela dá a idéia de colocarem as alianças na mão esquerda e fazerem de conta de que já são casados assim que entrassem no avião. Ele obedece prontamente, mas tem uma idéia melhor. Vai ao banheiro, escreve um bilhete para o comandante do vôo:

Esta é a lua de mel de Daniel e Maria Rita. Por favor anuncie boas vindas para nós.

Pronto, só bastava isso. Entraram com as alianças na mão esquerda. Atrás de Rita, Daniel entregou o bilhete a aeromoça, que recebe o papel desconfiada, provavelmente achando que se tratava de algum terrorista. Devidamente acomodados no Boing 737 da Varig, começam a tirar as fotos de recordação ali mesmo. Chega a comissária de bordo com cara de poucos amigos. Meus senhores, disse ela, devido a um overbooking, houve duplicidade na venda de assentos. Os senhores precisam se levantar imediatamente.

Barraco. Não sabia que uma moça tão fina e requintada, moradora da Ladeira da Barra, pudesse falar aquela quantidade de palavrões. Aprendi alguns, inclusive. Criatura ignóbil. Sacripanta. Levantamos, ela furiosa batendo os tamancos atrás da aeromoça, que ia dizendo minha senhora, tenha calma, isso acontece, mas não se preocupe, vamos fazer o possível para resolver este problema. O que estou tentando dizer aos senhores é que seus lugares foram devidamente transferidos…para a primeira classe.

Ritinha não sabia se morria de vergonha pelo barraco ou pela alegria da surpresa. Suplicou duzentos e noventa e quatro pedidos de desculpas para uma comissária que, pelo visto, não aceitou nenhuma delas e saiu com cara de quem ajuda todo mundo e só recebe coice. Ao sentarem naquela poltrona azul grande, confortável e imponente, o comandante falou pelo microfone: senhoras e senhores, este é o vôo 7257 de Salvador com destino a Fortaleza. Dia lindo de sol. Eu sou comandante Rodrigo Lopes, desejo a todos uma boa viagem. Gostaria de parabenizar o casal Daniel e Maria Rita pela lua de mel. Faremos o possível para tornar este momento inesquecível.

Nem sabia que um avião podia servir champanha em taças de cristal. Mas era verdade. Era verdade também o prato de costeletas de cordeiro com creme de maracujá. De dez em dez minutos, o comandante felicitava o casal. Maria Rita já havia acabado com todos os lenços de papel de tanto chorar. Até mesmo na hora de avisar que o avião daria voltas em loop por quinze minutos antes de começar a aterrissagem, por conta de uma chuva forte de verão, ele felicitou o casal. Desceram. Chegaram. Foi tudo lindo, cinco dias de felicidade. Comemoraram intensamente um matrimônio que nunca existiu de verdade. Acabou sem nunca ter sido.


Daniel acendeu a luz, pegou a agenda de telefones, leu um número que lembrou ter decorado uma vez e ligou. Enquanto chamava, pensava em todas as besteiras que fizeram depois, tanta imaturidade que desfizeram uma história sem fim ter fim. Ela atendeu. Ele não teve coragem de falar. Ela também não disse nada. Sabiam exatamente quem estava do outro lado da linha. Desligaram. O simples fato de jurarmos esquecimento perpétuo de uma lembrança demonstra nossa incapacidade de esquecê-la. Ele apagou a luz, mas manteve seus pensamentos acesos por toda a madrugada.

                                                                               Bruno D’Almeida

criado por Bruno D'Almeida    23:45 — Arquivado em: Crônicas

22 Comentários »

  1. Comentário por Gio — 9.6.09 @ 0:29

    Se arrependimento matasse… E olha que às vezes mata.

    Bruno D'Almeida

    Bruno D'Almeida Reply:

    Concordo, Gio, mas as lembranças ficam.

  2. Comentário por taci — 9.6.09 @ 20:37

    Esse meu cunhado arrebentaaaaaaaaaaaa
    amo ler seus textos…parabéns!!!jogue duro sempreeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
    torço pelo sucesso dessa familia lindaaaaaaa
    bjkssssssssssssssssss

  3. Comentário por Carla Amorim — 16.6.09 @ 22:31

    É meu caro amigo Bruno, certas lembranças… Não se apagam jamais, por mais que queiramos, elas nos perseguem como cicatrizes e o pior é que ficamos com aquele sentimento de que poderia ter sido bom. Fica uma sensação de que colocamos um “curativo” ineficaz.

  4. Comentário por Alexandre Cardoso Garcia Leite — 19.6.09 @ 9:18

    Bruno como sempre, está de parabéns!!! Ainda não li uma crônica sua que não valesse a pena. Contudo, parodiando Abílio Diniz a vida é cheia de “Caminhos e Escolhas”. Viveu, foi bom, então valeu a pena! Siga para frente! Em linguagem popular, chame a próxima da fila. (rsrsrs)

  5. Comentário por shintoni — 25.6.09 @ 15:20

    Bruno:
    O Gio me enviou um e-mail avisando que indicou o seu blog pro selo MasterBlog. O link da postagem dele é: http://fatosdefada.blogspot.com/2009/06/master-blog-o-retorno.html
    Abração!

  6. Comentário por shintoni — 28.6.09 @ 14:22

    Bruno:
    Hoje postei esta crônica, ok?
    Valeu mesmo!
    Abraço e bom domingo!

  7. Comentário por fabiana — 29.6.09 @ 13:57

    Ameii!Outro texto maravilhoso.
    Queria dizer professor que estou sentindo saudades das suas aulas(e uma pena o senhor ter saido do sagrado) e vou aguardar ansiosamente com um novo texto.;D
    bjs

  8. Comentário por shintoni — 10.7.09 @ 16:43

    Bruno:
    Postei no Duelos o seu comentário sobre Tropa de Elite, ok?
    Um abraço.

  9. Comentário por mario — 25.7.09 @ 1:19

    Excelente crônica. Leitura agradavel e prazerosa. Parabens.

  10. Comentário por shintoni — 28.7.09 @ 14:35

    Bruno:
    Tornei público seu recado no Duelos. Esperamos para breve seu retorno.
    Abração!

  11. Comentário por Nay — 3.8.09 @ 1:26

    Oi,nossa!Vc escreve bem pra caramba!Adorei mesmo seus textos.Espero ansiosamente por novos ^^
    um abraço

  12. Comentário por shintoni — 7.8.09 @ 20:06

    Bruno:
    Hoje seu blog foi indicado para o selo MasterBlog lá no Duelos Literários.
    Se quiser publicá-lo aqui, é só conferir as regras lá no blog.
    Abração e ótimo final de semana!

  13. Comentário por Ana — 13.8.09 @ 7:03

    Bruno, bom dia!
    Se der, aparece lá no Duelos hoje para assistir ao Duelochat entre mim e Gio. Se achar que eu mereço, torce por mim… Começa às 22:30. Espero que esteja curtindo as férias. Beijo pra família.
    Abraço.

  14. Comentário por shintoni — 14.8.09 @ 15:33

    Bruno:
    Hoje seu blog foi novamente indicado a um selo pelo Duelos, desta vez ao selo “Vale a Pena Ficar de Olho Nesse Blog!”.
    Se quiser incluí-lo aqui, é só ir ao Duelos conferir!
    Abração e ótimo final de semana!

  15. Comentário por Catinha — 2.9.09 @ 0:31

    Bruno, saudades da prosa… estou curiosíssima para experimentar novos sabores. Quando vem o novo prato?
    bjs!

  16. Comentário por nay — 6.9.09 @ 16:45

    Já li todos os seus textos até quase me engasguei rsrsrs
    p.s:também estou esperando por novos textos aguardo asiosamente(tomara que logo)
    bjos

  17. Comentário por nay — 30.10.09 @ 22:54

    ola,faz um tempo que voce não posta.espero que não tenha desistido adoro seus textos.
    beijos
    aguardo por novos pratos.

  18. Comentário por Mônica Klein — 21.11.09 @ 20:37

    Bruno, fiquei feliz em ver seu blog em destaque no site do Terra. Fui sua aluna no curso de elaboração de projeto ambiental (algo parecido rsrs). Visito sempre seu blog. Em breve eu quero montar o meu. Te falo, depois. Sucesso. Beijos

  19. Comentário por Patricia — 8.10.10 @ 12:41

    Perfeito!

    Adoro suas crônicas, tudo que você escreve.

    Confesso á você, que vejo tanta simplicidade, tanta realidade, clareza… e em alguns textos, chego a me imaginar.
    Vou distante com meus pensamentos…
    Enfim… lá estou!

  20. Comentário por Bruna — 23.3.11 @ 23:27

    Adoreii muitooooo!

    Lembrei de mim

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