Bruno D´Almeida - Um escritor comendo pelas bordas. Todo domingo uma nova crônica.

Aqui você lê textos literários e outros pensamentos imperfeitos. E-mail: brunofd@hotmail.com

7.6.09

Viagem da viagem de quase lua de mel

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Olhando para o teto da cama, Daniel Limeira relembrou o momento em que encontrou uma pessoa do passado na rua. Foram cinco intermináveis segundos até o sinal abrir. E ele lembrou mais ainda, mais do que gostaria. Aquela mulher recebeu a maior declaração de amor que ele fora capaz de fazer. Mas é o seguinte: essa história não tem final feliz. Tem certeza de que precisa relembrar? Daniel mandou seu anjo-diabo da guarda calar a boca.

Primeira viagem dos noivos. Ela dá a idéia de colocarem as alianças na mão esquerda e fazerem de conta de que já são casados assim que entrassem no avião. Ele obedece prontamente, mas tem uma idéia melhor. Vai ao banheiro, escreve um bilhete para o comandante do vôo:

Esta é a lua de mel de Daniel e Maria Rita. Por favor anuncie boas vindas para nós.

Pronto, só bastava isso. Entraram com as alianças na mão esquerda. Atrás de Rita, Daniel entregou o bilhete a aeromoça, que recebe o papel desconfiada, provavelmente achando que se tratava de algum terrorista. Devidamente acomodados no Boing 737 da Varig, começam a tirar as fotos de recordação ali mesmo. Chega a comissária de bordo com cara de poucos amigos. Meus senhores, disse ela, devido a um overbooking, houve duplicidade na venda de assentos. Os senhores precisam se levantar imediatamente.

Barraco. Não sabia que uma moça tão fina e requintada, moradora da Ladeira da Barra, pudesse falar aquela quantidade de palavrões. Aprendi alguns, inclusive. Criatura ignóbil. Sacripanta. Levantamos, ela furiosa batendo os tamancos atrás da aeromoça, que ia dizendo minha senhora, tenha calma, isso acontece, mas não se preocupe, vamos fazer o possível para resolver este problema. O que estou tentando dizer aos senhores é que seus lugares foram devidamente transferidos…para a primeira classe.

Ritinha não sabia se morria de vergonha pelo barraco ou pela alegria da surpresa. Suplicou duzentos e noventa e quatro pedidos de desculpas para uma comissária que, pelo visto, não aceitou nenhuma delas e saiu com cara de quem ajuda todo mundo e só recebe coice. Ao sentarem naquela poltrona azul grande, confortável e imponente, o comandante falou pelo microfone: senhoras e senhores, este é o vôo 7257 de Salvador com destino a Fortaleza. Dia lindo de sol. Eu sou comandante Rodrigo Lopes, desejo a todos uma boa viagem. Gostaria de parabenizar o casal Daniel e Maria Rita pela lua de mel. Faremos o possível para tornar este momento inesquecível.

Nem sabia que um avião podia servir champanha em taças de cristal. Mas era verdade. Era verdade também o prato de costeletas de cordeiro com creme de maracujá. De dez em dez minutos, o comandante felicitava o casal. Maria Rita já havia acabado com todos os lenços de papel de tanto chorar. Até mesmo na hora de avisar que o avião daria voltas em loop por quinze minutos antes de começar a aterrissagem, por conta de uma chuva forte de verão, ele felicitou o casal. Desceram. Chegaram. Foi tudo lindo, cinco dias de felicidade. Comemoraram intensamente um matrimônio que nunca existiu de verdade. Acabou sem nunca ter sido.


Daniel acendeu a luz, pegou a agenda de telefones, leu um número que lembrou ter decorado uma vez e ligou. Enquanto chamava, pensava em todas as besteiras que fizeram depois, tanta imaturidade que desfizeram uma história sem fim ter fim. Ela atendeu. Ele não teve coragem de falar. Ela também não disse nada. Sabiam exatamente quem estava do outro lado da linha. Desligaram. O simples fato de jurarmos esquecimento perpétuo de uma lembrança demonstra nossa incapacidade de esquecê-la. Ele apagou a luz, mas manteve seus pensamentos acesos por toda a madrugada.

                                                                               Bruno D’Almeida

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31.5.09

Estratégias mirabolantes para sedução de mulheres

 

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Lá estavam todos amontoados naquela salinha miserável para aprender a conquistar mulheres. Jovens na faixa de 16 a 97 anos, dos mais variados tipos, alguns com espinhas no rosto, outros com cabelos nas mãos. Entram os dois palestrantes do Instituto para Iniciação da Sedução. Silêncio. Quer dizer, um quase-silêncio: barulho do ventilador de teto rangendo, respirações fumegantes, dentes igualmente rangendo.  O show vai começar.

Meus senhores, diz o palestrante Alex Gomes, este é o dia mais importante de suas vidas. De agora em  diante, nada mais de dinheiro gasto com revistas masculinas! Nada de ficar chorando pelos cantos, agora todos vocês serão homens sedutores e saberão conquistar mulheres. Dediquei grande parte da minha vida nestes meus 34 anos de existência a entender o que se passa na cabeça de uma mulher. Tornei-me biólogo para compreender que os principais fatores que fazem uma mulher ser seduzida por um homem são puramente genéticos.  Tomem nota, por favor.

O homem exala no seu suor feromônios. A mulher sente o cheiro do macho e se apaixona. Por isso algumas mulheres gostam de homens musculosos. Feromônio puro. Outras mulheres gostam de homens com dinheiro, mas não é apenas o dinheiro que as atraem. O componente ancestral da fêmea, por conta da reprodução, exige dela um comportamento de preservar a espécie. Ela gosta de homem rico porque ele é capaz de dar filhos com segurança e estabilidade para ter uma família. O primeiro passo, meus caros, é tirar a barriga ordinária e andar bem vestido. Eu mesmo conquistei minhas primeiras 14 namoradas assim. Agora, tem outra coisa importante, que meu colega André Costa Pinto vai ensinar, que é o fator psicológico.  André, a palavra é toda sua.

Meu caros, diz André, eu já conquistei as mais belas mulheres do mundo usando a cabeça. Vocês precisam entender que mulher gosta é de atitude. Vou dar uma dica importantíssima. Escrevam. Faça o seguinte quando quiser pegar a uma mulher na escola ou no trabalho: Diga a ela pra esperá-lo lá fora quando sair. Se ela não estiver lá, esqueça. Ela não quer saber de você. Mas se ela estiver lá fora te esperando, com braços e pernas cruzadas, sorriso no rosto dizendo diga o que você quer falar comigo, não tem nada para falar: agarre e beije logo. Mulher gosta é de atitude.

A platéia estava mimetizada. Ontem de noite fui a um barzinho, continuava ele, mirei uma gata e disse: preciso de uma opinião sincera e peço que me ajude. Sinceramente, o que te atrai num homem? Ela gaguejando, olhando nos meus olhos, disse que gostava de homem sincero, bonito, fiel e foi olhando pra mim e projetando nos meus olhos tudo o que ela achava de um homem perfeito. Depois de 23 minutos estávamos nos beijando e nem queiram saber o que aconteceu duas horas depois. Entendam que ninguém se apaixona por outra pessoa, as pessoas se apaixonam pela imagem que projetam dessa pessoa. O segredo então, é projetar a imagem de homem perfeito que elas pensam de você.

Vamos ao teste prático. Alex chama a assistente de sala. Vanessa, se eu te dissesse todas essas coisas, o que você faria? Ah, diz ela suspirando, eu me apaixonaria por você na mesma hora, assim como por qualquer um destes homens da platéia que mostrasse metade de seus conhecimentos sobre a alma feminina. Pois é isso, meus caros, disse agora André, saiam pelas ruas a partir de hoje como novos homens profundamente conhecedores da arte da sedução. Hoje a noite vistam a roupa mais bonita, encontrem a primeira mulher interessante que vejam pela frente e tenho certeza de que será um sucesso. Na saída não esqueçam de pegar os diplomas de vocês. Era o que tinha a dizer. Muito obrigado. Aplausos demorados de pé.

Nem precisa dizer que todos saíram da palestra encantados. Receberam material didático e midiático para aprofundar os conhecimentos adquiridos e com tira-dúvidas on line durantes três semanas. O pagamento foi parcelado em 10 sem juros no cartão.  Um sujeito mais afoito encontrou a bela Vanessa no ponto de ônibus e foi logo perguntando o que a atraía num homem. Quase soltando uma gargalhada, ela acenou um adeus com as mãos e entrou correndo no primeiro ônibus que passou. Quase consegui, pensou ele. Com a próxima não haverá escapatória. Maldito ônibus.

                                                                                              Bruno D’Almeida

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24.5.09

Cobras e contas de folhas de bananeira

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Na escola, Dentinho era apenas a criança desobediente, “que não queria nada com a hora do Brasil”. Era motivo de risos e de babas meladas na carteira.  Tinha uma rotina que começava bem antes de chegar cedo na escola. Ninguém imaginava a aventura absurda que aquela criança se lançava todos os dias com a família em busca da própria sobrevivência. Vinha direto do trabalho, sentava na cadeira da sala de aula e dormia solenemente.

Todos os dia era a mesma coisa. Adentrar a mata fechada, arranhar as canelas finas, ouvir a sinfonia dos sapos, o canto da coruja, o arrastar de cobras farfalhando folhas secas pelo chão. Levantava às 3h30 da manhã com o cheiro de café que d. Zica fazia na cozinha. Acordava no chuveiro frio e depois comia mecanicamente um pedaço de cuscuz com margarina. Seu pai já estava amolando os facões e separando os sacos de alinhagem.

Todos prontos, saíam às 4h da manhã e desciam pela encosta do fim de linha do bairro do Iapi em direção ao 19º Batalhão do Exército. Pulavam o muro e entravam num pedacinho remanescente de Mata Atlântica para colher folhas de bananeira, que servia para embalar o abará, um bolinho de feijão vendido pelas baianas de acarajé. Não podiam demorar mais do que meia hora para que não fossem encontrados e presos. Cada um saía de lá com dois sacos cheios.

Chegavam em casa antes de amanhecer completamente o dia. D. Zica cortava as folhas de bananeira em quadradinhos e seu Zé passava um por um na brasa acesa do fogão de lenha para que a folha ficasse amolecida e pudesse empacotar os abarás. Dentinho, já com a roupa da escola, contava as folhas e fechava os pacotes com cem peças cada. Beijava sua mãe, comia uma pamonha de carimã e ia embora vender as folhas para outras baianas da região com seu pai.

D. Zica ficava em casa para moer o feijão fradinho do tipo olho de pomba, que ficou boiando na água dentro de uma bacia de alumínio grande até que as cascas se soltassem. Lavou na água corrente até ficar bem limpinho, passou pelo moinho motorizado, misturou com cebola triturada, pedacinhos de gengibre, azeite de dendê, pedaços de camarão seco e pimenta. Bateu a massa até ficar homogênea, colocou sobre a folha de bananeira, embalou com desenvoltura como se fizesse dois cones invertidos e foi colocando um por um no cadeirão de fundo falso, onde o vapor da água cozinhava cento e cinquenta abarás para serem vendidos à noite.

Dentinho ia com seu pai batendo na casa das outras baianas de acarajé da região, pelos bairros do Pero Vaz, Largo do Tamarineiro, Caixa D’água, Cidade Nova e Pau Miúdo. Sobrou quase metade naquele dia e tiveram que pegar um ônibus e vender o restante na Feira de São Joaquim. O preço do cento da folha dependia da procura. Por sorte o material estava em falta no momento e conseguiram vender por um preço bom. Seu pai ia explicando pra Dentinho que, se ele aprendesse tudo direitinho, já teria um ofício quando ficasse adulto. Ganhou uma moeda de cinqüenta centavos e foi contente para a escola, onde no intervalo poderia comprar uma banana real.

Pronto. Era por isso que, naquele momento, Dentinho estava dormindo  na escola. Por isso ele chegou atrasado, com a roupa suja e todo suado. Sua professora estava preocupada, porque de vez em quando ele acordava nas aulas de matemática, resolvia contas com desenvoltura e voltava a dormir. Ficava fazendo contas sozinho nas raras vezes em que acordava, mesmo no horário das outras matérias. A professora escreveu na caderneta: esquizofrênico? Dentro de si, tão distante da escola quanto a escola estava dele, Dentinho lutava contra cobras, serpentes, lagartos gigantes para conseguir pegar folhas de bananeira, naquele sonho de fantasia e de singela verdade.

                                                                                Bruno D’Almeida

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17.5.09

Movimento migratório de peixes dentro de um táxi

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Lúcio estava explicando suas teorias a mais um passageiro que entrava em seu táxi. Com seus cabelos esvoaçantes e barba por fazer, ele discorria que aquele domingo de pesadas nuvens pairando no céu era um excelente dia para fazer corridas e ganhar um dinheiro extra. Mas as pessoas nesse caso gostam de ficar em casa, retrucou o passageiro tirando melequinha do nariz. Mas o fato é que o senhor está pegando um táxi, meu amigo, eu vou te explicar como isso funciona, disse Lúcio, com cara de oráculo dos filmes de ação da Sessão da Tarde.

Quando chove logo cedinho, realmente eu fico boiando e não pego muitos passageiros. As pessoas adiam alguns compromissos que não são muito importantes e ficam em casa. Só consigo uma corrida ou outra de um cliente conhecido que liga pra mim. O bom mesmo é quando começa a chover depois das pessoas já estarem na rua. Aí é uma beleza. O cidadão já está no médico, na loteria, no shopping, correndo pela cidade, quando as nuvens ficam escuras no céu. A cidade já fica lenta na própria iminência da chuva. É hora de seguir as nuvens para encontrar os passageiros.

Eu prefiro os bairros de classe média nessas horas. Sempre encontro um senhor aposentado ou uma mulher madura com pressa. Aliás, essa é batata. Um senhora de 40 anos, toda maquiada, com seu perfume francês, salto alto e bolsa tamanho gigante não espera nem chover para pegar um táxi, basta o tempo fechar que ela levanta a mão para o primeiro taxista que aparecer. Sempre quando chove eu faço umas quatro ou cinco corridas na Av. Paulo VI, no bairro da Pituba. Ou então vou para a Barra. Quer dizer que o senhor é taxista somente quando chove, riu o passageiro roendo cuidadosamente as unhas sujas. Não senhor, disse Lúcio, tem estratégia também quando o tempo está bom. Explico.

Quando faz sol, o movimento das pessoas muda. Eu fico na porta dos shoppings, na frente dos bares, eu adoro pegar passageiros em avenidas largas e retas no sol escaldante de meio dia. Nesse caso, o melhor lugar são os espaços abertos, onde o calor insuportável força alguém a pegar um táxi e me agradecer pelo ar condicionado. Ofereço uma bala, o jornal está aí do lado, ele usa o táxi não só como uma corrida, mas como um alívio. O senhor mesmo, é hora de almoço, o senhor quer ir pra casa, viu aquela nuvem pesada lá na frente, o que pensou? Eu estava atrás daquele ponto de ônibus que o senhor estava, tive que dar a volta no quarteirão para passar bem devagar pela sua frente e o que o senhor fez?  Eu aprendi tudo isso com meu pai, que era pescador. Como? Explico.

Eu sempre ia com meu pai nas embarcações da Colônia de Pesca do Rio Vermelho. Pescador adora pescar em dia de chuva. Ele fica torcendo para a chuva acabar depois de uns dois ou três dias, os peixes estão famintos, jogávamos a rede e era um mar de peixe. Muitas vezes, no mar, íamos ao encontro da chuva mesmo para pegar os cardumes de peixes fugindo. Já época de sol, era melhor de anzol mesmo. Tudo que tem vida neste mundo está sempre indo de um lugar para outro, seja fugindo da chuva, procurando comida ou correndo pra não perder o horário. O senhor mesmo está fazendo essas três coisas de uma só vez. Chegamos. São dezesseis reais e vinte. Quinze está bom. Até a próxima. Aqui está o meu cartão.

E lá se foi Lúcio buscando o movimento migratório das pessoas e de corridas através do céu nublado. Foi parando o carro devagar. Para onde vai a senhora? Salvador Shopping? Vamos. Eu sabia que a senhora ia pegar o meu táxi. Como? O tempo está fechado. Explico. É que…
                                                                                                    Bruno D’Almeida
 

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10.5.09

A famigerada desordem do mundo

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Ana Amélia tinha uma grande missão naquele dia: desencaixotar a mudança  de sua casa nova. A vida corrida a impedia de procurar pratos, toalhas, incensos, roupas, computador, até a geladeira se perdeu no meio da bagunça.  Filosofava sobre o processo de entropia escovando os dentes com os dedos. Antes de sair correndo para o trabalho, olhou para o caos dentro do próprio caos e disse a si mesma: de hoje não passa. Uma casa desarrumada pode ser uma metáfora inevitável sobre a bagunça que podemos propor às nossas próprias vidas.

É necessário dizer que nossa bela protagonista tinha um fusca 1967 amarelo. Um mimo. E lá ia ela, anacrônica, com sua roupa indiana bordada vermelha, margarida nos cabelos e uma cesta de vime com fitinhas coloridas no carona, onde levava sua refeição vegetariana: bananas, barras de cereais e  bolacha Maria. Ana Amélia é um daqueles personagens de um bom filme francês que resolveu existir de verdade, com toda sua insustentável verossimilhança. E era assim que ela ia fazendo seu trabalho de agente de uma editora de livros, de escola em escola, tirando dúvidas sobre o uso do material didático. Nem esperava ela, naquele dia, encontrar uma bagunça muito maior do que sua casa nova.

A cidade chovia de maneira torrencial. Seu fusquinha atolava em aguaceiros, não era apenas uma chuva, era um dilúvio. Todas as visitas tiveram que ser canceladas, ou pela  falta de possibilidade de chegar ao local ou pela suspensão das aulas nas unidades escolares. E foi assim durante todo o dia, uma sucessão de desacertos  que só encontrava refúgio na certeza de arrumar a bagunça de sua casa. Ela precisava encontrar urgentemente a caixa de meias e de roupas miúdas, estava cansada de comprar promoções de três pares de meias por nove e noventa em lojas de departamentos. Sem contar o sumiço do cabo de água da máquina de lavar que a impedia de deixar as roupas  com cheiro de sabão Omo. Atolava o cartão de crédito com roupas novas.

Mas o dia não estava perdido, havia uma palestra de amigos para assistir de noite. A chuva deu trégua. E lá foi Amélia, aquela que desafiava o compositor Mário Lago e sabia ser mulher de verdade. Depois da grande dificuldade de estacionar nas ruas estreitas de Salvador, encontrou uma multidão em frente ao prédio da faculdade com várias negativas e caras de adeus.  Queda de energia, aulas suspensas. Ouvia e, mais do que isso,  via com seus olhos vivos de âmbar a tristeza da amiga comunicar o adiamento da palestra. O que mais faltava acontecer? Vamos comer pizza, gritou. Tem uma pizzaria com massa de batata deliciosa perto de minha casa, vamos transformar a palestra em bate-papo para fechar nosso dia, discorria uma alma em busca do refúgio do prazer em meio ao turbilhão de vastas emoções de acontecimentos imperfeitos.

Bem, alguma coisa precisava dar certo naquele dia, não é? Sentada entre amigos, podiam todos falar e rir das besteiras que quisessem. Podiam pedir uma pizza família de rúcula com tomate seco, frango catupiry, margueritta e atum. Podiam discorrer sobre as experiências de uma aldeia hippie em Arembepe ou sobre o  show de tributo a Bob Marley do fim de semana. Ana Amélia, no seu mundo hermético, desenhava no papel da mesa a paleta de cores de sua existência, a luta para se firmar no mundo que coubesse na grandeza de  seus sonhos, a saudade dos sobrinhos em São Paulo e tantos outros pensamentos, até ser repreendida por seu comportamento autista e voltar a participar das conversas na mesa. Mas era fim de festa, diziam seus olhos vermelhos, seus bocejos áridos e a cara de quem, para conseguir dormir, bastava apenas fechar os olhos.

Subiu as escadas do Edifício Quitandinha, lugar escolhido a dedo pela nossa salvadora andorinha de seu universo particular, já lembrando da bagunça que a esperava. O banho serviu para refrescar a ideia de que, apesar do dia ruim, a beleza de seus anseios permanecia intacta. E lá ia ela fazendo contas de quanto tempo faltava para escrever uma nova peça de teatro,  organizar um novo sarau ou espetáculo de dança e todas as coisas que uma artista precisa para tornar o viver muito mais do que a mera existência.  Faltava pouco, muito pouco para tudo isso acontecer.  E o sono era  uma cantiga embalando aquela mulher cheia de vidas encaixotadas,  dormindo tranquila diante da famigerada desordem do mundo.

                                                                              Bruno D’Almeida

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7.4.09

Lançamento do Documentário Práticas Pedagógicas: a diversidade cultural na sala de aula

 


A Coordenadoria Regional da Liberdade, sob a coordenação do educadora Jô Bahia, que engloba 30 escolas municipais da região do bairro de mesmo nome da cidade de Salvador, uma das periferias mais populosas da Bahia e do Brasil, acaba de produzir o documentário Práticas Pedagógicas: a diversidade cultural na sala de aula, que estreia dia 30 de abril, com sessões às 16h e às 20h, na Sala Walter da Silveira, que funciona na Biblioteca Central dos Barris. Com Roteiro e Direção do professor da rede Bruno D´Almeida, o vídeo trata da aplicação da Lei Federal 10.639/06 e 11.645/ 08 que estabelece a inclusão da cultura  afrodescendente   e indígena, respectivamente, no currículo nacional. A entrada é franca.

O documentário coloca o professor como protagonista deste processo, através da realização de atividades planejadas no cotidiano escolar com o intuito de fomentar a cultura afro e indígena nas escolas. Atividades como a da professora Niclécia Gama, da Escola Municipal Abrigo Filhos do Povo, que realizou uma atividade sobre as casas Ndebeles africanas para ensinar língua portuguesa, geometria, geografia e história. Ao todo, doze professores realizam atividades no documentário para seus educandos, mostrando que o ensino da cultura afro não se limita a atividades festivas, que são muito importantes, mas também em todas as áreas de estudo, habilidades e competências do currículo escolar.



É necessário frisar que nenhuma das atividades foi realizada em datas comemorativas ou feitas exclusivamente para o vídeo. Tudo foi feito no decorrer do ano letivo enquanto planejamento pedagógico dos professores e da escola e recuperado para a produção audiovisual. O objetivo do vídeo é revelar práticas pedagógicas dos professores em torno da lei, multiplicando e disseminando seu uso na atividade docente.



A produção do vídeo contou com diversas etapas. Já houve vários cursos de capacitação da SMEC e da CRE Liberdade em torno da Lei 10.639/03 desde que a mesma foi implantada, em 2003. Era hora de verificar como isso impactou no trabalho dos professores e na vida dos educandos e da comunidade. O primeiro passo contou com uma pesquisa de campo, englobando as escolas da região, entrevistando professores e gestores das unidades escolares sobre o conhecimento da lei e suas aplicações em sala de aula.



Elaborou-se então um projeto para a construção do documentário, com roteiro técnico, orientações sobre as locações, onde foi usado o espaço da própria escola, como pátio, salas e bibliotecas, além de dicas para figurino e maquiagem: os professores foram orientados a utilizarem as roupas habituais e maquiagem leve. Foi feito também um calendário de gravações, que culminou na filmagem das atividades em outubro de 2008 em parceria com a Unifacs - Universidade Salvador -, que cedeu equipamentos e pessoal técnico para gravação. Quase 200 educandos participaram das gravações, todos com as devidas autorizações de uso de imagem.



Na fase de pós-produção, foi firmada uma importante parceria com a Dimas, Diretoria de Audiovisual da Funceb/Secult/Governo da Bahia, que cedeu a Sala Walter da Silveira para exibição e ajuda na produção do vídeo no formato de dvd. Além disso, para atividades futuras, a Dimas também colaborará no fomento à participação em atividades de capacitação profissional e na participação no projeto ‘Formação de Público’ da Dimas, que visa o acesso de professores e alunos da rede pública à conteúdos do acervo audiovisual da instituição.

Este é o primeiro documentário do Núcleo de Produção Audiovisual, que funciona atualmente na CRE Liberdade e já se prepara para produzir um novo documentário, intitulado Contadores de histórias, mais uma vez com a participação central de professores e educandos da rede escolar. Maiores informações no blog npacreliberdade.blogspot.com.


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22.3.09

A odisseia do menino infante e seu cachorro-quente

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De repente aquele menino magrinho se encontrou perdido no meio da praia.  Alexsander olhava para tudo e não via nada. Nada além de vendedores de óculos escuros, de água de coco, de picolés e  de bronzeadores que besuntavam corpos morenos na areia.  Ele via o mar de gente na água,  os adultos brincando de frescobol, ele via o mundo passar pela janelas dos seus olhos e não se reconhecia em nenhum rosto, nenhuma paisagem mirava seus pais e sua piscina de plástico azul com peixinhos multicores.

Olhou para o pedaço de cachorro-quente na mão e pensou Papai do Céu, agora só  tenho isso para comer pelo resto da minha vida. Fez uma trouxinha com o papel laminado ao redor do seu  lanche  e o segurou firme como seu talismã da sorte. Apertava com cuidado seu alimento para a alma, a única coisa que lembrava seus pais e a possibilidade de se sentir com eles, de não parecer estar tão sozinho. Minha mãe está aqui comigo, pensava. Nenhuma presença se faz mais concreta do que a lembrança exata de quem mora dentro da gente.

Depois de meia hora sentado e de sentir o ardor do sol na sua pele amarela e fina de pêssego, um casal de  idosos  vê aquele infante olhando sozinho para o infinito. A pergunta sobre os pais de Xandinho foi seguida de braços abertos e de uma cara de não sei.  Partem todos em busca do tão esperado encontro que só precisava acontecer. O garoto começa andar, andar, andar, cansar, cair, levantar, andar, nausear, vomitar, beber uma água de coco e sentar novamente  na areia. Vamos levar você para casa e divulgar seu desparecimento ao mundo, disse a senhora idosa com cara de Dona Benta do Sítio do Pica-pau Amarelo.

Chegou na casa do casal com cara de nunca mais. Nunca mais ia tomar banho de mangueira com sua cachorrinha Nina, que pulava feito louca no vazio do ar e depois se sacudia,  distribuindo jatos de água e de pulgas. Nunca mais contaria as estrelas fluorescentes adesivadas no céu de seu quarto, nunca mais comeria bolo-pudim, nunca mais receberia sermões de seu pai por colocar os pés na mesa da sala de aula e de responder a professora com mais e mais porquês.  Nunca mais tantas coisas pairavam naquela cabecinha de sete anos, e a velocidade de imagens fluía com a mesma densidade das lágrimas de seus olhos. A única coisa que ele via era tudo que não gostaria de ver.

O velhinho Pascoal, com cara de Visconde de Sabugosa das mesmas histórias de Monteiro Lobato, chamou o menino para o noticiário da tevê. A jornalista relatava o nome e a descrição da criança perdida com o telefone para contato. E aquele aparelho telefônico preto com  teclas de disco não era mais apenas um telefone. Era o centro do universo, e seu silêncio ensurdecia os ouvidos da criança que, de tão concentrada com os olhos fixados naquele objeto em cima da escrivaninha de vime, ouvia apenas as vozes da sua momentânea loucura de falar em pensamento frases desconexas . É necessário lembrar que o telefone não tocava. E foi assim durante duas horas e quarenta e três minutos. Tocou. E para tristeza daquela alminha sardenta e dentuça, quando alguém ligou era para perguntar se, caso encontrasse os pais da criança, receberia alguma recompensa. Pascoal devolveu dizendo que não sabia que urubu falava e bateu o telefone.

Engolido por uma camisa listrada de malha piquê e ao lado de um saquinho de supermercado com sua sunga molhada, ele apagou no sofá.  Dormia e babava e até em sonhos estava na mesma posição de cão-de-guarda do telefone. E dormindo sentia o tempo passar e despassar. Sentia o vazio de um desejo cheio de desesperança. Sentia a mão fria e sedosa de uma senhora dizendo acorde, meu filho, seus pais ligaram e estão vindo pegar você.  Correu até a porta do apartamento e parou de repente. Sentiu falta de si mesmo. Foi até a geladeira, pegou o cachorro-quente embalado com alumínio  amassado  e cheio de areia e correu até o elevador, onde as portas se abriram para um mundo que por um instante, um eterno momento de instante, parecia não ter fim.

 

 

                                                                                                 Bruno D’Almeida

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15.3.09

Minha filha não remexe a bundinha

Cena do filme Pequena Miss Sunshine

 Dona Feliciana não queria a filha de seis anos vestida como se fosse  uma dançarina de pagode ou fantasiada de rainha do funk. Foi tratando de desligar o som  e de trocar a roupa da menina, tirando o shortinho malhação e o top de lycra. Limpando a base avermelhada, a sombra nos olhos e o baton borrado da boca daquela alminha em fase de crescimento, ela disse espere um pouco minha filha, preciso falar com sua tia, dirigindo-se à cozinha e esfregando freneticamente os molares dentro da boca.

  Duelo verbal. Feliciana, ou Feliz, como era chamada por tia Leocrécia, começou a bradar. Não quero minha filha parecendo uma coisinha vulgar, onde seus coleguinhas da alfabetização queiram agarrá-la como se ela fosse o corrimão da escola. Não quero a coisa mais importante da minha vida esfregando as mãos no corpo e se requebrando até ficar de cócoras, ouvindo o cantor machista da música chamá-la de ordinária, cachorra e que vá remexendo a bundinha, disse a mãe. Sou contra a erotização infantil. Quem perde a infância antes da hora passa a idade adulta lamentando que seu melhor momento da vida não aconteceu.

 Tia Leocrécia não deixou por menos. Acorde, Feliz, a vida não é a vida da Chapeuzinho Vermelho, dizia a tia. Não pode colocar sua filha numa redoma de vidro e esconder as verdades verdadeiras do mundo. Dorinha precisa ver a vida como ela é, se preparar pra encarar a vida de frente, afinal o elo de ligação que liga ela com a gente um dia vai sair para fora, falava a tia assassina da linguagem objetiva. Você é enfermeira, é uma pessoa estudada, mas não é dona da verdade, disse Leocrécia, que só tinha estudado o Ensino Fundamental. A tia parou de falar para prestar atenção no programa da televisão, onde a câmera focava, em pleno horário de almoço, um homem com a cabeça estourada por um fuzil na favela do Brongo.

 Mudando o canal para um programa onde bonecos coloridos e feitos com massas de modelar cantavam uma ciranda, por ter percebido a presença da filha, dona Feliciana olhava pro seu troféu e dizia que não era contra qualquer estilo musical ou manifestação de pensamento, que inclusive costumava brincar seu carnaval dançando exatamente as mesmas músicas que proibia sua filha de ouvir. Mas era tempo de sua filha curtir a infância sendo criança de verdade e não apenas uma miniatura de adulto, correndo o risco de Dorinha ser abusada por um pedófilo troglodita neste país de crimes nem sempre solucionados. Vamos embora, minha filha.

 Mas não acabou por aí. Feliz precisava convencer a própria prole. A menina disse que queria ser como as colegas da escola,  e a mãe devolveu que não queria saber dos filhos dos outros e sim da sua filha. De cara embirrada, foi praticamente obrigada a usar seu vestido bordado rosa  e entrelaçar os cabelos. Sentada no sofá e de braços cruzados, foi aos poucos prestando atenção na gritaria e nas risadas vindas do lado de fora da janela. Suas amigas de rua brincavam de amarelinha. Nem precisou sua mãe terminar de balançar a cabeça permitindo, e lá se foi Dorinha correndo encontrar Duda, Fatinha e Maria Luíza. A euforia foi tanta, mas tanta, que a menina esqueceu o cd de Dj Marlboro que sua tia lhe deu de presente.

                                                                                                              Bruno D´Almeida

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8.3.09

A revolta do pão de queijo

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  O casal mineiro, em plena primeira viagem de namoro, foi barrado na saída do hotel em Gramado com dois pães de queijo na mão. Eles não podiam ficar para a belíssima ceia matinal, pois estavam atrasados para um passeio pelas cidades das serras gaúchas. Diante de compotas de doces de leite, de goiaba, guloseimas de chocolate, suco de uva Isabel, bolos e tortas caseiras, frutas macias, frescas e doces, cestas de todos os pães possíveis e imaginários, eles não podiam levar um pão de queijo.

 Depois de uma argumentação amigável, uma discussão controlada e vários xingamentos inomináveis, deu-se naquele lugar a maior revolução desde que os farrapos se voltaram contra o poder do Império. A bela mocinha disse que aquele trem não ia ficar barato, e quando voltassem do passeio de trem em Bento Gonçalves, o dono do hotel ia ver com quantos pães de queijos se faz uma Maria Fumaça. O gerente devolveu um bá, guria, deu pra ti, e eles saíram revoltados sem ao menos saber o que aquela expressão regional significava. 

 Entraram indignados na van que os conduziria ao passeio. Nem todo o glamour das ruas perfeitas de Gramado e seu Festival de Cinema com estrelas do Brasil e do mundo, nem a arquitetura colonial alemã imponente de Canela, nem o frescor do vento matinal de Nova Petrópolis, nada os animava. As belíssimas peças de inox na maravilhosa fábrica de artefatos domésticos de Carlos Ribeiro eram uma monotonia. As provas de queijos e vinhos se tornaram entediantes. O passeio no Maria Fumaça não teve a menor graça. Era um paradoxo: enquanto todos ao redor estavam felizes e admirados com tudo, um casal recolhido a uma tristeza inquebrantável formava uma imagem fosca daquele belo quadro.

 Bastou um ato de desrespeito e de descortesia para mudar a percepção de todas as coisas. A maior revolução que podemos nos permitir é a mudança do olhar. Um mundo de magia pode se transformar no pior dos porões das almas castigadas de qualquer inferno imaginário.  Findado o passeio, o casal pôs em prática o plano que arquitetaram durante todo o dia.

 Foram a Câmara Municipal, à rádio e ao jornal. Cada pessoa que encontravam no saguão do hotel era informada da barbaridade que tinham passado. Almoçando, passeando, a todo o momento contavam o acontecido. Passaram a acordar mais cedo para participarem do café da manhã do início ao fim para relatar a quem quer que fosse o direito augusto de um mineiro comer seu pão de queijo. 

 A confusão chegou aos ouvidos do prefeito da cidade. De maneira diplomática e evidentemente política, foi se retratar publicamente ao casal na frente do hotel e na presença da comunidade local gramadense. Disse que a razão de existir do povo gaúcho daquela região era tratar bem cada turista. Que eles tinham razão na sua revolta e que um acontecimento isolado não podia macular toda a grandeza de um povo. Ao lado do dono do hotel, que perdera quase metade dos hóspedes em dois dias de confusão, pediram perdão pelo ocorrido, dando ao casal passagem e hospedagem uma vez por verão pelo período de dez anos.

 Voltaram para casa de alma lavada, travestidos do espírito de luta dos mártires da Inconfidência Mineira.  Tomando um chimarrão no fim da tarde, souvenir comprado na viagem, os nossos ferrenhos defensores dos direitos do consumidor estampavam um sorriso no rosto maior do que qualquer trem bão que você possa imaginar.

                                                                                                                          Bruno D´Almeida

 

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1.3.09

O dia em que Otacílio pediu demissão de si mesmo

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Ele passa estalando os dedos solenemente pela sala dos professores e fixa um texto no mural de aulas:

 Esta não é uma carta de despedida. Nem mesmo quem parte definitivamente e vai pro céu brincar de nuvem deixa de morar no coração da família. Por isso mesmo que deixo de coexistir ao lado de pessoas que me são tão caras, porém que nunca estarão ausentes, no mínimo porque sei que levarei comigo um pedaço de cada uma delas. Este é o verdadeiro significado da palavra presença: não necessariamente tudo que está ao nosso lado, mas tudo que habita em nós.

 Eu, como tantas formigas neste açucareiro, tenho meus sonhos. Sou um escritor em tempo integral, e todas as atividades que faço derivam da exaustiva e prazerosa construção de palavras e de imagens. Saio para dar asas a este sonho: não quero mais apenas ler e corrigir os textos dos outros, nem ensinar aos outros uma língua que não está mais nos manuais de gramática. Meu maior desejo, inclusive, é o de sempre subvertê-la. Meus próprios textos me pediram, por favor, humildemente, e com todas as recomendações, de que não fossem mais silenciados. Gritem, meus filhos polissêmicos, que este mundo não é surdo. Alguém vai ouvir e me dar uma oportunidade.

 Por isso a partir de agora quem quiser ver meus trabalhos e compartilhar esta delicadeza sutil de dizer o indizível, pode ler minhas crônicas, contos, poemas, ensaios, roteiros, filmes, comerciais de margarina, bulas de remédio, tudo que poder virar matéria, luz, câmera, ilusão, pensamento e sentimento. Estou me colocando para o mundo enquanto escritor e suas milhares de faces escondidas e escancaradas: cronista, redator publicitário, jornalista, roteirista, diretor  e milhares de etecéteras.

 Podem me encontrar discorrendo sobre os milhares de benefícios em acordar tarde, vejam meus filmes sobre a redescoberta da lua em um novo empreendimento imobiliário, entreguem meus poemas a um amor verdadeiro com um chocolate meio amargo. Leiam, sintam, emocionem-se, gritem, participem da minha vida com o que posso me dar de melhor, esta grande incapacidade de deixar de dizer o que sinto e penso sobre todas as coisas.

 Não estou me despedindo de vocês. Estou saindo daqui ciente do que me espera lá fora, nesta nova jornada incerta de um mundo de finais felizes e de balas perdidas. Eu precisava cometer este erro grave, mas tão grave, em ser professor durante tantos anos, atividade que sempre fiz com tanta dedicação, para mudar de idéia com relação ao meu futuro e não errar no principal: não serei eu mesmo o maior erro da minha vida. Vou a procura de acertos e o principal deles é que não quero mais ser um sujeito passivo diante das palavras.

 E foi exatamente com esse texto que aquele querido gordinho, com seus quase trinta anos de escola, publicou sua primeira crônica no jornal A Luneta, o mais prestigiado da região de Ribeira do Pombal.

                                                                                              Bruno D´Almeida

 

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